Era uma vez uma fábrica de meias femininas mais ou menos bem sucedida. O CEO dessa fábrica nunca ficava muito feliz quando via os números do estoque pós-inventário: alguns tamanhos de meias sempre se esgotavam rapidamente, enquanto outros sempre sobravam aos montes. Até que um belo dia ele teve uma ideia:
- Eureka! Achei a solução para o meu problema! Meias de tamanho único!
E assim nasceu a invenção mais lucrativa do século. Os moldes de tamanhos foram todos jogados no lixo e foi desenvolvido um molde único para a fabricação de meias, com o objetivo de caberem em todos os tipos de mulheres. Quem achou que o CEO estava pinel e que isso nunca iria vingar mordeu feio a língua, pois o tal CEO tinha um caso com a dona da Wolford, que obviamente achou tudo absolutamente ridículo mas não quis ofender o cara (além disso o nicho de mercado dela era outro, muito mais AAA) e deu todo o apoio que ele precisava para lançar a ideia de girico no mercado.
Foi desse modo que surgiram as meias de tamanho padrão, que supostamente cabem em todas as mulheres do mundo. Tenha você 1,50 metro ou 1,90 metro, 40 Kg ou 80 Kg, calce 33 ou 40, as meias serão as mesmas. No caso das meias-calças, elas são fabricadas frouxas, sem compressão alguma e com muita elasticidade para caber nas magrinhas e nas cheinhas, nas baixinhas e nas altinhas. O resultado é uma meia que veste bem a princípio, mas que estica e deforma logo no primeiro uso, de forma que da próxima vez ela vai ficar folgada a não ser que você tenha as pernas da Gisele Bündchen.
No caso de meias com calcanhar definido (tipo as soquetes), elas tendem para o tamanho intermediário/grande. Se você calça 33 é problema seu, vai sobrar um monte de meia lá na frente. Se você calça 40 também é problema seu, a meia vai apertar seus dedos ou então vai esticar tanto que deformará a estampa. E isso de deformar a estampa também acontece nas meias de 3/4 pra cima se você não tem pernas de saracura. Quero dizer, basta ter um mínimo de batata na perna para a estampa deformar a ponto de ficar feia, a não ser que a estampa seja de listras ou xadrez.
Vejam bem, não me levem a mal aqui. Eu tenho inúmeras meias de tamanho único (a maioria delas, por sinal) e dá para usá-las mesmo sendo baixinha de perna grossa que calça 35. É verdade que eu sempre tenho de dobrar uns 3 centímetros de meia pra dentro do sapato, mas infelizmente as estampas e as cores mais lindas com preços que cabem no bolso só são feitas em tamanho único.
O que eu não consigo usar e que me dá mágoas profundas no coração são as meias over-the-knee e as thigh-high. Não vou me referir nesse post a meias 5/8 e 7/8 porque eu não consigo entender direito essa nomenclatura. Pela definição tradicional as meias 5/8 são as over-the-knee e as 7/8 são as thigh-high, mas na minha matemática 3/4 é maior do que 5/8. Mas bem, deixemos isso pra lá e voltemos ao problema.
O tal CEO já estava faturando horrores com a invenção das meias de tamanho único, aí ele teve outra ideia brilhante, igualmente suportada pela dona da Wolford, que dessa vez abraçou a causa com todas as forças e também entrou na onda:
- Mas claro! Por que gastar mais material fazendo meias-calças? Vamos lançar no mercado meias cotós e cobrar o mesmo preço das meias tradicionais! Genial!
E assim surgiram as minhas meias preferidas de todos os tempos da última semana que são as meias over-the-knee, mas eu simplesmente não consigo usá-las. Já tentei de tudo, tudo mesmo. Já pesquei em sites algumas dicas de mulheres com o mesmo tipo físico que o meu, mas isso só aumentou ainda mais a minha frustração porque elas conseguem usar e eu não. O que acontece é que a borda superior da meia ou fica enrolando ou corta a minha circulação, uma tristeza.
Já experimentei meias com bordas largas, bordas de renda, de algodão. Nada resolve. Já tentei a famosa cinta-liga, mas a posição dos prendedores faz com que me incomodem demais. Já usei elásticos próprios para suporte de meias, com prendedores e sem prendedores, mas mesmo comprando no maior tamanho disponível e ajustando a regulagem para o maior diâmetro possível, eles cortam a minha circulação. Se eu coloco um bocadinho mais pra baixo eles escorregam e caem.
Já tive a ideia de usar a meia dobrada sobre ela mesma, colocando o elástico abaixo do joelho onde é mais confortável, mas deixando uma parte da meia pra cima cobrindo o joelho. Funciona que é uma beleza até eu dar dois passos, pois termina escorregando. A etapa seguinte foi comprar uma cola específica para usar na pele, mas a miserável teve o desplante de grudar a roupa na minha pele (causando um pouco de dor para tirar) e ainda assim não sustentou a meia. Resumo da ópera: eu uso todas as minhas meias over-the-knee e thigh-high como 3/4, matando 50% da beleza delas, porque não consigo achar uma solução para o meu problema.
É por conta dessas experiências que eu desejo torturar psicologicamente o CEO fictício da minha historinha de forma bem cruel, lenta e dolorosa, de preferência envolvendo o enforcamento/sufocamento dele com meias, muitas e muitas meias.
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