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Nessa matéria, nossa entrevistada é Renata Aschar. Há mais de 20 anos na área de cosméticos, Renata atua como consultora de marketing e estratégias, e é autora dos livros "Brasilessência: A Cultura do Perfume" (Editora Best Seller), "Banho: História e Rituais" (Grifo) e "Guia de Perfumes" (Duetto). Na década de 1990 Renata foi a Paris procurar parcerias para trazer marcas importantes para o Brasil. Ela conta que, antes da era do e-mail, enviou faxes para uns 20 profissionais e quem lhe retornou foi nada menos do que Pierre Dinand, maior especialista em design de perfume na Europa, criador de 500 frascos, como Armani, Eternity for Men e Obsession, de Calvin Klein, e Opium, de Yves Saint-Laurent. “Foi uma excelente escola. Dentre os grandes projetos que desenvolvemos para o Brasil, um deles foi o perfume Kaiak da Natura. Durante este período comecei a escrever para várias publicações internacionais da área como a revista Happi (USA) e a Cosmetic News (França) e assim comecei a me especializar em matérias sobre perfumaria, especialmente sobre o mercado brasileiro, alvo do interesse de muitas empresas no exterior. Em 1998, Pierre Dinand me convidou para fazer uma exposição sobre a perfumaria brasileira em um museu do Japão do qual ele era curador. E foi aí que constatei que nada existia escrito sobre perfumes em língua portuguesa. Decidi então publicar um livro sobre perfumes que fosse super abrangente, com toda a história da perfumaria desde o Egito até a Amazônia”. O livro "Brasilessência" foi publicado em 2001 com o patrocínio da Natura e do Boticário, em português e inglês e se tornou uma referencia na área de perfumaria. Vale a leitura!
Renata conta que depois de três anos de dedicação exclusiva para elaboração do livro ela viveu uma espécie de ‘depressão pós-livro’. “Pensei, agora, o que fazer?”. Com apoio de Miguel Krigsner, então presidente de O Boticário e colecionador de frascos raríssimos, surgiu a ideia de criar um museu do perfume: “Entendia do assunto, mas era preciso ir além e estudar a origem dos frascos que fariam parte do acervo, e conhecer os materiais com os quais eram feitos. Krigsner me deu total autonomia. Passei um período na Europa, fazendo pesquisas, colhendo informações e visitando fábricas tradicionais, como Lalique, Baccarat. Na volta, já tinha um pré-projeto e a maquete eletrônica do museu.”
Inaugurado há cinco anos, em Curitiba, com o nome O Espaço Perfume Arte & História, o museu teve consultoria e conteúdo de Renata, e projeto do arquiteto Nivaldo Vitorino. Logo depois, ela lançou mais duas publicações, "Banho: Histórias e Rituais" (em parceria com a marca de sabonetes Lux) e o "Guia de Perfumes", um manual prático com dicas, informações e um teste que ajuda a identificar as famílias olfativas que mais se adaptam a cada pessoa. Este último, da Editora Duetto, é sempre atualizado e se tornou uma ferramenta realmente muito útil para quem quer conhecer e se manter atualizado no mercado da perfumaria.
Hoje, Renata é consultora na área, ajudando desde a concepção da fragrância, de acordo com o perfil do público-alvo, aos contatos com os distribuidores. “Moda e perfume têm tudo a ver e acredito que, a exemplo dos estilistas franceses, os designers brasileiros vão investir nesse campo, ainda pouco explorado.” Sempre envolvida com novos desafios, Renata tem como meta a criação de um museu-escola em São Paulo: “O mercado movimenta milhões e não há cursos de formação acadêmica no País”, justifica. Sua ideia é fazer uma parceria com a escola ISIPCA – Institut Supérieur International du Parfum, de la Cosmétique et de L’Aromatique Alimentaire, instituição fundada em 1970 por Jean-Jacques Guerlain e gerenciada a partir dos anos 80 pela Câmara do Comércio e Indústria de Versailles. “Lembrando que o Brasil ocupa lugar de destaque no ranking de consumo de perfumes, os alunos seriam absorvidos pelo mercado.”
Sobre as particularidades do Mercado de Perfumaria de Luxo no Brasil, Renata Aschar concedeu uma entrevista exclusiva para o site LuxuryLab:
Vera Golik – Em que lugar o Brasil está no ranking dos mercados de perfumaria de luxo no mundo? Ou seja, como as marcas que vem para o Brasil se colocam nesse ranking?
Renata Aschar – O Brasil é hoje o segundo mercado em consumo de perfumes, segundo dados do Euromonitor. No entanto por volta de apenas 6% do que se vende no mercado brasileiro são perfumes importados, o restante são as marcas nacionais e dentro delas as de maior peso são Natura, Avon e O Boticário.
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Vera Golik – Quais as principais estratégias e restrições que o mercado brasileiro impõe à perfumaria de luxo?
Renata Aschar – A indústria brasileira se protege bem contra a concorrência internacional. As tarifas de importação são bastante elevadas e algumas restrições junto a Anvisa também são bastante estritas, por este motivo, perfumes importados chegam a ser no Brasil até 200% mais caros que em outros países ou mesmo em relação ao Duty Free. Isto dificulta bastante o crescimento dos importados no Brasil, mas mesmo assim, pelo dinamismo do mercado e a estabilidade econômica, os números deste segmento vêm crescendo relativamente bem. O fato é que o consumo de perfumes importados no Brasil ainda é pequeno e nas apresentações, o Brasil entra no grupo dos “Outros países”, enquanto mercados como o Americano, o Europeu ou o Asiático trazem números bem expressivos, embora estagnados.
Vera Golik – Qual o potencial de crescimento desse mercado no mundo e, especificamente, no Brasil?
Renata Aschar – No mundo, não acredito que haja muito mais espaço para crescer, os grandes mercados estão praticamente saturados. Já no Brasil o potencial é enorme, devido ao ingresso cada vez maior de pessoas de classes mais baixas no consumo e a estabilidade econômica. No entanto, neste caso, falamos de marcas mais populares. As marcas de luxo locais praticamente não existem e eu aposto bastante no segmento da moda brasileira. Eles têm tudo para se posicionar como verdadeiros perfumes de luxo, 100% nacionais e prontos para exportação, onde existe um grande incentivo.
Vera Golik – Existem cases interessantes que você conheça e que possam exemplificar o mercado de perfumaria de luxo no Brasil?
Renata Aschar – Fiz recentemente um perfume para a marca Melissa, da Grendene, lançado em dezembro de 2009. Melissa é uma grande marca no mundo da moda, não só no Brasil, mas também no cenário internacional. O perfume reflete todos os valores da marca, é super feminino, moderno, a fragrância é maravilhosa, enfim, tem todos os ingredientes para se tornar um grande nome na perfumaria.
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Vera Golik – Existe um trabalho de escolha das fragrâncias que devem entrar no mercado brasileiro conforme o perfil do público consumidor aqui?
Renata Aschar – Embora a brasileira tenha uma preferência olfativa mais dirigida aos florais mais frescos, ela também consome outros tipos de perfumes. Costumo dizer sempre que o perfume é na verdade um estado de espírito e muitas das mulheres (felizmente) usam o perfume de acordo com as intenções, ou seja, é fácil uma mulher ter mais de quatro perfumes em uso. Enfim, tem gosto para tudo e as grandes marcas lançam os produtos praticamente simultaneamente em todo o mundo.
Vera Golik – O Brasil é mercado teste para a América Latina ou para outras partes do mundo? Por que? Os/as consumidores/as aqui tem um comportamento específico a ser levado em conta em relação a esse mercado? Quais as principais diferenças?
Renata Aschar – O Brasil é o mercado mais importante da America Latina. Deve ser hoje responsável por algo em torno de 50% em vendas e veja que estamos considerando 16 países. Sim, existem claras diferenças do Brasil em relação a outros países da America Latina. Como o Brasil é um país continental, quase todas as direções olfativas são bem aceitas, mas existe uma clara preferência no campo dos femininos, por exemplo, por perfumes florais onde o frescor é predominante. Cresceu também a preferência por perfumes florais frutais e florais almiscarados e florais orientais. Ou seja, a feminilidade é a grande chave!
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Vera Golik – Qual a relevância da marca do perfume dentro do processo de decisão de compra? A marca pode ter maior poder de persuadir que a própria fragrância em si?”
Renata Aschar – Experimente entrar numa loja e cheirar os perfumes de olhos fechados, a decisão será mais difícil, com certeza. A marca tem bastante influência na hora da compra, ela traz em si todo um universo em torno do perfume. Se as pessoas usassem mais o olfato, registrando em sua memória olfativa todos os cheiros agradáveis e associados aos bons momentos de sua vida pessoal, talvez fosse diferente.
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